Na visão do ex-secretário de Saúde Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, muitos municípios não sabem responder a uma pergunta básica sobre o rastreamento do câncer de mama: quantas mulheres da faixa indicada fizeram mamografia no prazo recomendado. A falta de resposta raramente decorre da ausência de exames. O problema está no registro, etapa pouco visível que define se o sistema consegue convocar, acompanhar e medir os resultados do próprio esforço.
Cadastro desatualizado esconde quem precisa do exame
O primeiro erro está na base de tudo, o cadastro da população. Mulheres que mudaram de endereço, de telefone ou de município continuam registradas na unidade antiga, enquanto moradoras recentes nem aparecem na lista. A convocação ativa, nesse cenário, alcança quem já não está ali e deixa de fora quem precisa do convite.
A atualização depende do trabalho contínuo das equipes da atenção primária, sobretudo dos agentes comunitários de saúde, que conhecem o território. Sem tempo e ferramentas para revisar os dados com regularidade, a lista de mulheres a convocar perde precisão a cada ano, e o esforço de busca ativa se dispersa entre endereços que já não correspondem à realidade.
Laudos que não voltam para a unidade de origem
O segundo erro ocorre depois do exame. A mamografia é feita em um serviço de imagem, muitas vezes em outra cidade, e o laudo fica disponível apenas para a paciente ou em um sistema que a unidade básica não consulta. A equipe que solicitou o exame não fica sabendo do resultado.
Quando o laudo é normal, a falha atrasa a programação do próximo exame. Quando há alteração, pode significar uma investigação que nunca começa. De acordo com Vinicius Rodrigues, o retorno do resultado à equipe de referência é o que transforma um exame isolado em parte de um programa de rastreamento.
Exames sem registro de seguimento
O terceiro erro é não acompanhar o que acontece após um laudo suspeito. Consultas, biópsias e resultados anatomopatológicos ficam espalhados entre serviços diferentes, sem registro integrado. O gestor sabe quantas mamografias foram feitas, mas não quantas mulheres com achado alterado concluíram a investigação.
O Ministério da Saúde mantém o Sistema de Informação do Câncer, conhecido como Siscan, que integra dados de exames de rastreamento e diagnóstico. A ferramenta, porém, depende de alimentação correta e completa pelos serviços. Na análise de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, um sistema bem estruturado perde utilidade quando parte dos prestadores não registra os exames ou o faz de forma incompleta.
Números de cobertura que não medem a realidade
O quarto erro aparece nos indicadores. Contar o total de mamografias realizadas no ano não mostra a cobertura, porque o número inclui mulheres fora da faixa etária indicada e exames repetidos na mesma paciente. Uma mesma mulher pode ser contada mais de uma vez, enquanto outras nunca fizeram o exame.
A cobertura real exige saber quantas mulheres diferentes, dentro do público-alvo, fizeram mamografia no intervalo recomendado. Sem identificação única de cada paciente e cruzamento entre bases de dados, a estimativa tende a ser otimista e mascara as lacunas do território.
Registro como ferramenta de gestão
Corrigir essas falhas não exige, necessariamente, novos sistemas. Muitas vezes, basta definir responsáveis pela alimentação dos dados, integrar os serviços de imagem à rede municipal e usar as informações em reuniões periódicas de acompanhamento.
O dado bem registrado permite identificar onde a convocação falha, quais unidades têm baixa cobertura e quanto tempo as mulheres esperam entre exame e tratamento. Conforme avalia Vinicius Rodrigues, o registro deixa de ser burocracia quando passa a orientar decisões, e é a partir dele que o rastreamento pode ser corrigido e ampliado com base em resultados concretos.