Retornar de uma viagem necessitando de um novo período de férias é um sintoma que Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, associa a roteiros montados como listas de tarefas. Três cidades em cinco dias, atrações encadeadas desde o café da manhã e deslocamentos longos entre um ponto e outro transformam o descanso em maratona, com pouco tempo para absorver o que se vê.
A prática conhecida como “slow travel”, ou seja, a “viagem lenta”, propõe um caminho oposto ao convencional: menos destinos, permanências mais longas e espaço na agenda para o imprevisto. A proposta não se resume a desacelerar, mas a transformar a relação com o lugar visitado, e compreender como aplicá-la ajuda a planejar viagens mais proveitosas sem necessariamente onerar o orçamento.
A diferença entre conhecer muitos lugares e vivenciar um destino
A primeira diferença reside no tempo de deslocamento. Cada mudança de cidade demanda um tempo considerável para o check-out, transporte, check-in e adaptação ao novo entorno. Em rotinas mais enxutas, esses intervalos podem chegar a representar uma parcela significativa da viagem. Permanecer por um período prolongado em um mesmo local permite que se recupere o tempo despendido, o que originalmente motivou a partida.
A segunda está na qualidade da experiência. A repetição da visita à padaria do bairro, o retorno a uma praça em horários alternativos ou o acompanhamento da rotina de uma feira semanal possibilita a percepção de detalhes que escapam àqueles que passam apenas uma tarde. O destino deixa de ser uma mera coleção de pontos turísticos e passa a ser um lugar habitado, ainda que por poucos dias.
Como ressalta Daugliesi Giacomasi Souza, essa dinâmica também modifica a percepção da arquitetura e dos espaços urbanos. Fachadas, materiais, cores e a forma como as pessoas ocupam ruas e praças se revelam aos poucos, e é na repetição dos trajetos que o viajante começa a entender por que cada cidade tem uma atmosfera própria.
O efeito no orçamento é o de reduzir gastos com passagens, traslados, taxas e estadias longas, permitindo negociar diárias ou alugar imóveis por semana. Optar por estabelecimentos gastronômicos frequentados pelos moradores, em vez de depender de restaurantes localizados em áreas turísticas, é uma estratégia que permite reduzir gastos e proporcionar uma experiência mais autêntica e próxima da culinária cotidiana do local.

O planejamento de roteiros com mais permanência e menos pressa
Trocar de hospedagem a cada noite é desgastante. Escolher uma ou duas cidades para se explorar em passeios de um dia, no entanto, preserva a variedade sem tal desgaste. Hospedagens com cozinha e estadias semanais têm tarifas reduzidas, reforçando a ideia.
De acordo com a fundadora da DGdecor, Daugliesi Giacomasi Souza, a localização do empreendimento é um fator tão relevante quanto a escolha da cidade. Estabelecer-se em uma região residencial, com comércio local, transporte acessível e vida própria fora do circuito turístico, aproxima o viajante do cotidiano do destino, fazendo das caminhadas parte integrante da experiência.
A agenda deve ter espaços para descanso. Priorizar uma ou duas atividades por dia, em vez de muitas, permite aceitar indicações de moradores e descansar durante o dia. Trens, ônibus e caminhadas revelam a paisagem entre um ponto e outro.
Para Daugliesi Giacomasi Souza, viagens de caráter lento também são uma possibilidade, ainda que em destinos próximos à residência do viajante. Passar um fim de semana em uma cidade do interior, sem a pressa de ver tudo, cumpre a mesma função de um roteiro internacional: priorizar a qualidade da experiência em cada lugar visitado em vez da quantidade.
Menos destinos, mais memória
A viagem lenta não demanda grandes orçamentos nem longos períodos de férias, mas requer uma mudança de critério. O valor de um roteiro deixa de ser medido pelo número de cidades visitadas e passa a ser medido pela profundidade da relação construída com cada lugar.
Conforme mencionado na análise de Daugliesi Giacomasi Souza, o que geralmente permanece de uma viagem é a experiência vivenciada, não necessariamente a lista de atrações cumpridas. São os trajetos recorrentes, as conversas imprevistas e os pormenores notados sem pressa que fazem do retorno para casa um período de descanso, e não a necessidade de novas férias.