Oferta de energia, expansão da infraestrutura digital e novos incentivos fiscais aumentam a atratividade brasileira para grandes centros de processamento de dados, enquanto consumo elétrico, uso de água e impactos ambientais entram no centro do debate.
O Brasil está intensificando sua tentativa de ocupar uma posição estratégica na infraestrutura global de inteligência artificial. O crescimento acelerado da IA exige cada vez mais data centers — instalações que concentram servidores responsáveis pelo treinamento e pela execução de modelos, além do armazenamento e processamento de grandes volumes de dados.
O movimento ganhou novo impulso nesta semana. Em 1º de setembro, o Senado aprovou o projeto que cria o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, o Redata. A proposta concede benefícios tributários para equipamentos utilizados na instalação e expansão dessas estruturas e agora segue para sanção presidencial. (Agência Brasil)
A dimensão econômica pode ser significativa. Estudo da FGV Projetos citado pelo UOL estima que um data center de 100 MW pode mobilizar aproximadamente R$ 25 bilhões em investimentos e gerar 37,2 mil empregos, considerando postos diretos, indiretos e efeitos sobre o consumo das famílias. (UOL Economia)
Ao mesmo tempo, a expansão traz desafios. Data centers voltados para IA necessitam de enormes quantidades de eletricidade, infraestrutura de transmissão e sistemas de refrigeração. No Brasil, pedidos de acesso ao sistema elétrico associados a esses projetos já somam cerca de 38 GW, segundo levantamento divulgado nesta quinta-feira. (TeleSíntese)
Por que o Brasil pode se tornar um polo de data centers?
Uma das principais vantagens brasileiras está na disponibilidade de diferentes fontes de geração de eletricidade. Hidrelétricas, parques eólicos, usinas solares, biomassa e outras fontes colocam o país em posição diferenciada no momento em que empresas globais procuram ampliar capacidade computacional e, simultaneamente, controlar as emissões associadas às suas operações.
Um estudo divulgado em setembro também aponta o potencial brasileiro para o chamado powershoring, conceito baseado na transferência de atividades industriais intensivas em energia para regiões capazes de oferecer eletricidade abundante e competitiva, especialmente de fontes de menor emissão. (Folha de S.Paulo)
O interesse empresarial já começa a aparecer em projetos concretos. Em agosto, a Alibaba Cloud anunciou dois novos data centers no Brasil como parte de sua estratégia de expansão internacional relacionada à computação em nuvem e à inteligência artificial. O investimento brasileiro está associado a um plano global de aproximadamente US$ 56 bilhões da companhia. (Folha de S.Paulo)
A combinação de infraestrutura, energia e demanda doméstica transforma o país em um mercado relevante. Além de atender empresas brasileiras, grandes instalações podem servir como infraestrutura regional para serviços de nuvem e inteligência artificial utilizados na América Latina.
O que muda com os novos incentivos?
O Redata pretende reduzir um dos obstáculos para novos investimentos: o elevado custo de implantação da infraestrutura tecnológica. O texto aprovado estabelece suspensão de tributos federais sobre determinados equipamentos adquiridos no Brasil ou importados para utilização nos centros de dados.
Entre os tributos contemplados estão Imposto de Importação, PIS/Cofins e IPI. A estimativa apresentada pelo governo aponta uma renúncia de aproximadamente R$ 5,2 bilhões em 2026, seguida por cerca de R$ 1 bilhão em cada um dos dois anos posteriores. (Senado Federal)
Em contrapartida, as empresas precisam cumprir requisitos. Entre eles estão destinar pelo menos 10% da capacidade efetivamente instalada ao mercado brasileiro e realizar investimentos no país equivalentes a 2% do valor dos equipamentos adquiridos com o benefício. (Agência Brasil)
Também existem exigências relacionadas à sustentabilidade. O projeto prevê critérios para fornecimento energético e eficiência hídrica, incluindo um Índice de Eficiência Hídrica para refrigeração igual ou inferior a 0,05 litro de água por kWh em aferição anual. (Senado Federal)
Inteligência artificial aumenta a demanda por infraestrutura
A corrida pelos data centers está diretamente relacionada à expansão da IA generativa. Treinar e executar modelos avançados exige milhares de chips trabalhando simultaneamente, conectados por redes de alta velocidade e instalados em estruturas com grande capacidade elétrica e sistemas especializados de refrigeração.
A escala dos investimentos globais mostra a dimensão dessa transformação. Estimativa da PwC aponta que os gastos mundiais com data centers destinados a atender a expansão da inteligência artificial podem alcançar US$ 31,6 trilhões até 2050 em seu cenário central. (Folha de S.Paulo)
Essa corrida também está transformando energia em um dos recursos estratégicos da indústria tecnológica. Já não basta possuir chips avançados: empresas precisam garantir terrenos, conexão à rede elétrica, sistemas de transmissão, água ou tecnologias alternativas de refrigeração e contratos de fornecimento energético de longo prazo.
É justamente nesse cenário que o Brasil tenta se posicionar. A possibilidade de combinar geração elétrica em larga escala com incentivos para infraestrutura digital pode favorecer novos projetos, especialmente se houver capacidade de expansão das redes de transmissão e geração.
Energia e água se tornam os principais desafios
A oportunidade econômica, entretanto, vem acompanhada de preocupações ambientais. Data centers de grande porte podem consumir volumes elevados de eletricidade, enquanto determinadas tecnologias de refrigeração também utilizam água para controlar a temperatura dos servidores.
O problema não é exclusivamente brasileiro. Nos Estados Unidos, o crescimento explosivo dos pedidos de conexão de data centers às redes elétricas já levou autoridades a revisar projetos e exigir maior comprovação financeira e técnica dos empreendimentos. (Reuters)
No Brasil, organizações da sociedade civil também questionaram os incentivos fiscais e pediram maiores salvaguardas ambientais e contrapartidas para o desenvolvimento tecnológico nacional. As entidades argumentam que simplesmente instalar servidores no país não é suficiente para garantir soberania digital. (Agência Brasil)
O desafio será equilibrar atração de capital, infraestrutura energética e proteção dos recursos naturais. Projetos mal dimensionados podem pressionar sistemas elétricos locais e recursos hídricos, enquanto empreendimentos bem planejados podem estimular investimentos em geração, transmissão e novas tecnologias de refrigeração.
Por que isso importa para a tecnologia brasileira?
A instalação de grandes data centers pode reduzir a distância física entre usuários brasileiros e os sistemas responsáveis por executar aplicações digitais e modelos de inteligência artificial. Isso pode contribuir para diminuir latência e ampliar a disponibilidade local de capacidade computacional.
Há também um componente econômico. Data centers movimentam setores de construção, engenharia elétrica, telecomunicações, energia, equipamentos, refrigeração, segurança e serviços especializados. Um único projeto de 100 MW pode representar investimentos na casa das dezenas de bilhões de reais, segundo a estimativa da FGV Projetos. (UOL Economia)
O impacto tecnológico de longo prazo, porém, dependerá das contrapartidas. Para que o país vá além de simplesmente hospedar servidores de empresas estrangeiras, será necessário transformar os investimentos em desenvolvimento de profissionais, pesquisa, infraestrutura, empresas nacionais e capacidade computacional acessível ao mercado brasileiro.
O Brasil entra, portanto, em uma disputa internacional que une inteligência artificial, energia e infraestrutura digital. A aprovação dos novos incentivos aumenta as possibilidades de atração de projetos, mas o sucesso da estratégia dependerá de como o país equilibrará investimento, capacidade energética, sustentabilidade e desenvolvimento tecnológico nacional.