Plano Brasileiro de Inteligência Artificial mira supercomputadores, modelos em português e capacitação de servidores, mas especialistas questionam o alcance das metas.
Quanto o Brasil está realmente disposto a investir para não ficar para trás na corrida global da inteligência artificial. Essa é a dúvida que ronda o debate público desde o lançamento do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), estratégia do governo federal para o período de 2024 a 2028. Com um investimento previsto de R$ 23 bilhões em quatro anos, o plano ambicioso visa transformar o país em referência mundial em inovação e eficiência no uso da inteligência artificial, especialmente no setor público. O valor, no entanto, é bem menor do que o destinado por potências como Estados Unidos e China ao mesmo setor, o que levanta uma questão central: será que o Brasil consegue competir com recursos tão mais modestos, ou o caminho passa por escolhas estratégicas mais específicas? GOV.BR
Os eixos e as metas do plano nacional
O PBIA tem cinco objetivos, entre eles equipar o país com infraestrutura tecnológica de alta capacidade de processamento, incluindo um dos cinco supercomputadores mais potentes do mundo, alimentado por energias renováveis, e desenvolver modelos avançados de linguagem em português que reflitam a diversidade cultural e social do país. Esse segundo ponto é visto por especialistas como um dos mais estratégicos, já que reduz a dependência de tecnologias treinadas majoritariamente em inglês e menos adaptadas às particularidades linguísticas e culturais brasileiras. Instituto de Economia – Unicamp
Do total de recursos, uma fatia expressiva está concentrada em inovação empresarial. Do orçamento do PBIA, R$ 13,76 bilhões estão destinados ao eixo de IA para inovação empresarial, voltado ao desenvolvimento de soluções tecnológicas capazes de aumentar a competitividade das empresas brasileiras, com a Finep participando desse esforço com R$ 3,4 bilhões em recursos previstos. Outra parcela relevante, de R$ 1,76 bilhão, está reservada à melhoria de serviços públicos por meio de IA, incluindo a criação de uma nuvem soberana de governo, projetada para proteger dados sigilosos sem depender de provedores estrangeiros. Brasil 247
O plano também prevê metas de capacitação de servidores públicos. Está prevista a capacitação de 115 mil servidores públicos até 2026 para o uso de inteligência artificial, com um investimento de cerca de R$ 7,5 milhões, além de iniciativas ligadas à Infraestrutura Nacional de Dados, como a catalogação de 2.000 conjuntos de dados do governo federal até 2027. Já a criação da nuvem de governo, voltada à proteção de informações sigilosas, deve receber um investimento de até R$ 1 bilhão. Capes
O que já saiu do papel na prática
Além dos recursos previstos diretamente pelo PBIA, o país conta com uma rede mais ampla de financiamento à inovação que já vem operando em paralelo. Levantamento da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE) mostra que o Sistema Nacional de Fomento desembolsou mais de R$ 74,4 bilhões para projetos de inovação entre 2023 e maio de 2026, somando recursos de instituições como Finep, BNDES, bancos de desenvolvimento e agências estaduais de fomento. Esse montante ajuda a explicar como algumas startups brasileiras de IA já conseguiram crescer e captar investimento internacional antes mesmo da maturação completa do plano federal. Brasil 247
Entre os exemplos citados está a Tractian, de São Paulo, que recebeu aporte da Finep via programa Mais Inovação, expandiu sua equipe de engenharia e hoje atende empresas como Ambev e Vale, já tendo captado rodadas de investimento nos Estados Unidos. Outro caso mencionado é o da Stattus4, especializada em saneamento, que usa inteligência artificial para identificar vazamentos ocultos em redes de água a partir de sensores acústicos, com aplicação já registrada em cidades como São Paulo e Campo Grande. Brasil 247
Esses casos mostram um caminho possível para o plano nacional: em vez de tentar competir diretamente em escala com os grandes investimentos globais em infraestrutura, o Brasil parece apostar em nichos onde já acumula competência, como agricultura de precisão, saneamento e indústria, unindo dados nacionais a modelos de IA adaptados à realidade do país.
As críticas e os desafios de execução
Nem todos veem o plano com o mesmo otimismo. Uma análise do Instituto de Economia da Unicamp aponta que o PBIA mistura objetivos de desenvolvimento de longo prazo com metas mais imediatas, o que pode reduzir o plano a um documento orçamentário com objetivos considerados difíceis de alcançar em quatro anos e meio, sobretudo pela dificuldade histórica de cooperação entre os setores público e privado no país. A mesma análise destaca que o investimento total, embora relevante para os padrões brasileiros, é pequeno diante do que já era o orçamento anual do país para toda a área de ciência e tecnologia. Instituto de Economia – Unicamp
Comparações internacionais reforçam esse ponto: o plano de IA dos Estados Unidos previa investimentos da ordem de R$ 63 bilhões em pesquisa e desenvolvimento, além de aportes privados estimados em R$ 380 bilhões, enquanto a China planejava investir R$ 306 bilhões apenas em datacenters para dar suporte ao desenvolvimento de IA. Diante desse cenário, o diferencial que o governo brasileiro tenta explorar é a soberania tecnológica ligada à língua portuguesa e aos dados nacionais, um território em que grandes potências não têm a mesma vantagem natural. Aprova
O sucesso do PBIA, portanto, não deve ser medido apenas pelo tamanho do investimento, mas pela capacidade de execução dentro dos prazos definidos e pela efetiva conversão desses recursos em ganhos concretos para empresas, servidores públicos e cidadãos comuns. Até 2028, o país terá a chance de mostrar se o caminho escolhido, menos ambicioso em volume financeiro, mas mais focado em nichos estratégicos, é suficiente para garantir alguma relevância global em um setor dominado por orçamentos muito superiores.
Fontes consultadas:
- Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) – Plano Brasileiro de Inteligência Artificial
- Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) – Transformação Digital e IA
- Instituto de Economia da Unicamp (IE/Unicamp)
- Brasil 247
- Ministério da Gestão e da Inovação – Governo Digital e Inteligência Artificial