Engenheiro Felipe Schroeder dos Anjos costuma apontar que o Brasil recicla uma fração pequena do plástico que consome, apesar de ter uma das cadeias de catadores mais organizadas da América Latina, o que revela um problema mais estrutural do que cultural na gestão desse tipo de resíduo, exigindo soluções que vão além de campanhas de conscientização isoladas e pontuais promovidas pelo poder público.
Grande parte do plástico se perde entre o descarte e a reciclagem
Boa parte do plástico descartado nunca chega às centrais de triagem, seja por falta de coleta seletiva regular, seja porque é misturado a outros resíduos e perde valor comercial antes mesmo de ser separado por tipo de material, comprometendo toda a cadeia produtiva de reciclagem existente no município e na região metropolitana ao redor.
O problema, segundo Felipe Schroeder dos Anjos, começa na etapa de descarte doméstico, já que embalagens sujas ou misturadas a restos orgânicos costumam ser recusadas pelas cooperativas, mesmo quando o material em si teria valor de mercado significativo se separado corretamente desde o início pela própria família, sem exigir nenhum equipamento especial ou investimento adicional.
Nem todo plástico tem o mesmo valor de reciclagem
Garrafas PET e embalagens de detergente têm mercado consolidado e preço relativamente estável, enquanto plásticos multicamada, como embalagens de salgadinhos e sachês, praticamente não encontram comprador entre recicladoras no país, mesmo representando volume expressivo do lixo domiciliar gerado diariamente pela população em centros urbanos e áreas rurais.
A indústria precisa repensar o design de embalagens desde a origem, priorizando materiais recicláveis, para que o problema não fique concentrado apenas na ponta da coleta e triagem, transferindo o custo ambiental para o poder público e para as cooperativas de catadores que operam com recursos escassos, avalia Felipe Schroeder dos Anjos nesse contexto.
Cooperativas de catadores sustentam a cadeia sozinhas
Grande parte da reciclagem de plástico no Brasil depende do trabalho de cooperativas de catadores, que operam com equipamentos limitados e pouco investimento em infraestrutura de separação automatizada, mesmo movimentando volume expressivo de material reciclável todos os meses em diferentes regiões do país, capitais e cidades do interior.

Ampliar o investimento nessas cooperativas, com prensas, esteiras e equipamentos de separação por tipo de resina, aumentaria significativamente a produtividade sem depender exclusivamente de grandes plantas industriais de reciclagem, distribuindo melhor o valor gerado ao longo da cadeia produtiva do setor e beneficiando trabalhadores locais em diferentes municípios.
Logística reversa funciona na prática para embalagens plásticas
A legislação brasileira prevê logística reversa para alguns tipos de embalagem, obrigando fabricantes a participar do retorno do material ao ciclo produtivo, mas a fiscalização e o cumprimento efetivo dessa obrigação ainda variam bastante entre setores e regiões do país, dificultando comparações diretas entre empresas de portes distintos e origens diferentes.
Segundo Felipe Schroeder dos Anjos, empresas que assumem esse compromisso de forma consistente acabam desenvolvendo cadeias próprias de reciclagem, o que fortalece o mercado como um todo e reduz a dependência de importação de resina virgem para novas embalagens plásticas produzidas no país e vendidas internamente ao consumidor final.
O consumidor tem papel real nesse processo
Separar corretamente o lixo em casa é apenas o primeiro passo de uma cadeia que envolve coleta, triagem, lavagem e reprocessamento industrial, etapas sobre as quais o consumidor final não tem controle direto algum, mas que dependem diretamente da qualidade do material que ele descarta em casa todos os dias.
Ainda assim, hábitos consistentes de descarte, como lavar embalagens antes de separar, fazem diferença real na qualidade do material que chega às cooperativas, aumentando as chances de reaproveitamento comercial de cada tonelada coletada ao longo do ano em diferentes regiões do país, capitais e cidades do interior.