Parceria entre o CEA e a startup Alice & Bob desenvolverá uma plataforma híbrida que combina computação tradicional de alto desempenho com processadores quânticos e terá a física de materiais entre suas primeiras aplicações.
A França deu mais um passo para aproximar a computação quântica dos grandes centros de processamento científico. Nesta quinta-feira, 17 de setembro de 2026, a startup francesa Alice & Bob e o CEA — órgão público francês de pesquisa em energia atômica e tecnologias avançadas — anunciaram uma colaboração para desenvolver software capaz de integrar computadores quânticos aos supercomputadores tradicionais. (Reuters)
A proposta não é substituir os supercomputadores atuais por máquinas quânticas. O objetivo é construir um ambiente híbrido no qual cada tecnologia execute a parte do problema para a qual estiver mais preparada. Um supercomputador clássico poderá continuar processando grande parte de uma simulação enquanto uma unidade quântica será acionada para cálculos específicos nos quais possa, futuramente, apresentar alguma vantagem. (Reuters)
O primeiro campo escolhido para os testes será a física da matéria condensada, com atenção especial aos chamados problemas de muitos corpos. Essas simulações tentam compreender sistemas formados por grande quantidade de partículas que interagem entre si e estão relacionadas a aplicações como descoberta de novos materiais, química e modelagem industrial complexa. (CEA/Recherche et innovation)
A iniciativa também faz parte de uma estratégia mais ampla da França para construir uma infraestrutura nacional de computação quântica. O CEA já possui sistemas quânticos de empresas francesas integrados à sua infraestrutura de computação de alto desempenho, enquanto uma máquina desenvolvida pela Alice & Bob deverá ser incorporada ao centro em 2027. (Reuters)
Como computadores quânticos e supercomputadores trabalharão juntos?
O ponto central do projeto está na criação de uma camada de software capaz de coordenar dois tipos muito diferentes de processamento. A parceria pretende integrar a tecnologia da Alice & Bob a uma cadeia híbrida baseada na plataforma Bull Qaptiva, desenvolvida para permitir que aplicações sejam executadas em diferentes sistemas quânticos e combinadas com infraestrutura tradicional de computação de alto desempenho. (CEA/Recherche et innovation)
Na prática, um pesquisador poderá utilizar o ambiente de supercomputação existente e encaminhar determinadas etapas de uma operação para um processador quântico. O software terá a função de organizar essas cargas, definir onde cada cálculo será realizado e administrar a comunicação entre as máquinas. Essa integração é considerada uma das barreiras técnicas para transformar computadores quânticos experimentais em ferramentas utilizáveis em centros científicos e industriais.
A Reuters informou que o trabalho também buscará aprimorar o Qaptiva em um cenário no qual outras plataformas já disputam a camada de software da computação híbrida. Uma das referências é o CUDA-Q, da Nvidia, desenvolvido para integrar aplicações quânticas a recursos clássicos de CPU e GPU. A iniciativa francesa procura reduzir a dependência de uma única plataforma tecnológica à medida que a computação quântica amadurece. (Reuters)
Essa abordagem significa que o computador quântico funcionará mais como um acelerador especializado do que como substituto integral do supercomputador. É uma lógica semelhante à utilização de GPUs em inteligência artificial: determinados componentes assumem operações específicas enquanto o restante da infraestrutura continua responsável pela maior parte do processamento.
Por que a física de materiais será uma das primeiras aplicações?
O programa conjunto começará investigando problemas de muitos corpos, nos quais numerosas partículas interagem simultaneamente. Conforme a quantidade de partículas e interações cresce, a complexidade computacional pode aumentar rapidamente, tornando algumas simulações extremamente difíceis mesmo para máquinas clássicas de alto desempenho.
Segundo o CEA, esses problemas representam um campo estratégico para avaliar futuras vantagens da computação quântica. Os resultados podem contribuir para pesquisas envolvendo novos materiais, química e simulações industriais complexas, áreas nas quais prever propriedades físicas antes da realização de experimentos pode reduzir tempo e recursos necessários ao desenvolvimento tecnológico. (CEA/Recherche et innovation)
A expectativa, entretanto, é de médio e longo prazo. O programa pretende desenvolver algoritmos que possam ser executados de maneira realista nos primeiros sistemas quânticos tolerantes a falhas, conhecidos como eFTQC, por volta de 2030. Portanto, o anúncio não significa que computadores quânticos já consigam superar supercomputadores tradicionais nessas aplicações atualmente. (CEA/Recherche et innovation)
A própria Alice & Bob já vinha apontando ciência de materiais como uma das áreas com maior potencial para sistemas quânticos tolerantes a falhas. Um relatório técnico publicado anteriormente pela empresa identifica simulações de materiais entre os candidatos mais promissores para aproveitar esse tipo de arquitetura quando o hardware atingir escala e confiabilidade suficientes. (Alice & Bob)
França prepara infraestrutura para a próxima geração da computação quântica
O acordo também está ligado à estratégia francesa de colocar equipamentos quânticos próximos aos grandes supercomputadores. Em junho de 2026, a agência nacional de computação de alto desempenho GENCI assinou a aquisição de uma máquina da Alice & Bob com 18 cat qubits, tecnologia desenvolvida pela startup para reduzir determinados erros diretamente no hardware. (Alice & Bob)
O equipamento deverá ser instalado no Très Grand Centre de Calcul, o TGCC, e integrado ao supercomputador Joliot-Curie. A previsão é disponibilizá-lo a pesquisadores em 2027. O centro já abriga outras máquinas quânticas e funciona como uma espécie de laboratório para testar como diferentes arquiteturas podem operar em conjunto com sistemas tradicionais de alto desempenho. (Alice & Bob)
A estratégia evidencia uma mudança importante no setor. Em vez de esperar pela chegada de um computador quântico universal capaz de executar sozinho aplicações comerciais complexas, centros de pesquisa estão construindo desde agora ferramentas, interfaces e fluxos de trabalho híbridos. Dessa forma, quando processadores quânticos mais robustos estiverem disponíveis, parte da infraestrutura necessária para utilizá-los já poderá estar preparada.
O projeto anunciado em 17 de setembro deve justamente testar essa ponte entre os dois mundos. Se a integração funcionar conforme planejado, pesquisadores poderão utilizar recursos quânticos dentro de ambientes de supercomputação já conhecidos, direcionando apenas determinadas operações para o novo hardware. O avanço não representa ainda uma demonstração de vantagem quântica industrial, mas cria a infraestrutura necessária para investigar onde essa vantagem poderá surgir à medida que a tecnologia amadurecer. (CEA/Recherche et innovation)
Fontes: CEA — parceria com Alice & Bob para integração quântica e HPC · Reuters — França integra computação quântica e supercomputação · Alice & Bob — aquisição do computador quântico pela França · Alice & Bob — integração de computação quântica com HPC