À medida que cresce o reconhecimento público sobre os impactos dos relacionamentos abusivos na saúde emocional, Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista com experiência em saúde mental e relações familiares, representa um campo de conhecimento que busca compreender o processo de recuperação com a profundidade que ele merece. Reconstruir a autoestima após um relacionamento abusivo não é uma tarefa que segue uma linha reta, nem um processo com prazo definido. Trata-se de um caminho gradual, individual e muitas vezes não linear, que envolve redescobrir a própria percepção de valor após um período em que ela foi sistematicamente questionada ou desestruturada.
De que forma a voz do agressor se torna uma internalização negativa?
Para compreender como se dá a reconstrução da autoestima, é necessário primeiro entender como o relacionamento abusivo age sobre ela. A erosão da autoestima em contextos de abuso raramente ocorre de uma só vez. É um processo gradual, construído por meio de críticas repetidas, humilhações, desqualificações e comportamentos que levam a pessoa a duvidar de sua capacidade de julgamento, de sua atratividade e de seu valor como ser humano.
Com o tempo, a voz do agressor pode tornar-se uma voz internalizada, ou seja, a pessoa começa a reproduzir internamente as mensagens negativas que recebeu, mesmo quando não está mais na presença do parceiro. Sentimentos de vergonha, de inadequação e de culpa são comuns em pessoas que saíram de relacionamentos abusivos, e podem persistir por um período considerável após o término da relação.
Conforme esclarece Taiza Tosatt Eleoterio, a autoestima afetada pelo abuso não é apenas uma questão de autoconfiança superficial. Está relacionada a camadas mais profundas da identidade, à percepção de merecimento afetivo e à capacidade de confiar na própria percepção sobre si mesma e sobre os outros. Reconstruir essa base exige tempo, suporte e, frequentemente, acompanhamento especializado.
Reconhecer que a baixa autoestima experimentada após um relacionamento abusivo é uma consequência de um processo sistemático de desqualificação, e não um reflexo real do valor da pessoa, é um passo importante, ainda que nem sempre fácil de dar logo no início do processo de recuperação.
Quais são os desafios únicos que cada pessoa enfrenta ao reconstruir sua autoestima?
Taiza Tosatt Eleoterio elucida que a reconstrução da autoestima começa, muitas vezes, com gestos pequenos e concretos. Cada pessoa percorre esse caminho de forma singular, com ritmos próprios e obstáculos específicos, e pressionar alguém que saiu de um relacionamento abusivo a seguir em frente rapidamente pode ser contraproducente e reforçar a sensação de que seus sentimentos não são válidos. O acompanhamento psicológico ou psicanalítico pode ser um recurso central nesse processo: o espaço clínico oferece um ambiente de escuta seguro, em que é possível elaborar as experiências vividas, compreender os padrões que se instalaram e desenvolver novos recursos internos.
O trabalho clínico não tem como objetivo apressar a recuperação, mas oferecer condições para que ela ocorra com mais profundidade e consistência. Compreender como o abuso operou sobre a percepção de si mesma, identificar as vozes internalizadas ao longo do relacionamento e construir uma relação mais compassiva consigo própria são alguns dos movimentos que esse processo pode envolver.
As redes de apoio, além do acompanhamento profissional, também têm papel relevante. Grupos de mulheres que vivenciaram situações semelhantes podem oferecer um senso de pertencimento e de compreensão que é difícil de encontrar em outros contextos. O reconhecimento de que não se está sozinha em uma experiência que muitas vezes foi vivida no isolamento pode ser, por si só, um elemento restaurador.
Como observa Taiza Tosatt Eleoterio, a reconstrução emocional é favorecida quando a pessoa tem acesso a diferentes fontes de suporte: clínico, comunitário e relacional. Não há um único caminho, e combinar diferentes formas de apoio, de acordo com as possibilidades e as necessidades de cada uma, tende a ser mais eficaz do que depender de uma única via.
A importância de respeitar os próprios limites na recuperação da autoestima
Taiza Tosatt Eleoterio explicita que a autoestima, em sua dimensão mais profunda, está relacionada à capacidade de confiar na própria percepção, de sentir que as próprias necessidades são legítimas e de acreditar que se é merecedora de afeto, respeito e bem-estar. Após um relacionamento abusivo, essas certezas podem estar profundamente abaladas, mas não são irrecuperáveis.
Parte do processo de reconstrução envolve aprender a reconhecer e a respeitar os próprios limites, o que muitas vezes foi inviabilizado ao longo do relacionamento abusivo. Perceber o que gera bem-estar e o que gera desconforto, nomear os próprios desejos e aprender a comunicá-los são habilidades que podem ser resgatadas e fortalecidas ao longo do processo de recuperação.
A autoestima reconstruída não é idêntica àquela que existia antes do relacionamento abusivo. É, em muitos casos, uma autoestima mais consciente, construída sobre uma compreensão mais profunda de si mesma e dos próprios valores. Esse processo, ainda que doloroso, pode abrir espaço para uma relação com a própria identidade que seja mais genuína e mais consistente.
Taiza Tosatt Eleoterio detalha que o processo de reconstrução emocional após um relacionamento abusivo é também um processo de reencontro com a própria história, com os próprios valores e com a capacidade de projetar uma vida que seja coerente com o que se deseja para si mesma. Não é um caminho linear, mas é um caminho possível, que começa com o reconhecimento de que a recuperação é um direito, e não um privilégio.
Buscar apoio é essencial para transformar a relação com a própria identidade
Reconstruir a autoestima após um relacionamento abusivo é um processo que exige tempo, suporte e cuidado. Não há fórmulas, prazo definido nem caminho único. O que existe é a possibilidade real de redescobrir a própria voz, de reconstruir a confiança em si mesma e de construir uma relação com a própria identidade que seja mais livre e mais verdadeira. Buscar apoio, seja de pessoas próximas, de grupos comunitários ou de profissionais de saúde mental, é parte legítima e necessária desse processo. A recuperação é possível, e cada passo dado em direção ao próprio bem-estar importa.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez